Análise da presença de fragmentos de plásticos na dieta e nos ninhos de corujas-buraqueiras (Athene cunicularia) em áreas urbanas na Caatinga potiguar
Palavras-chave:
Ecologia trófica, poluição, conservação, manejo de faunaResumo
A poluição por plástico é atualmente um dos maiores impactos ambientais negativos aos ecossistemas terrestres e aquáticos. Na última década, evidências científicas comprovaram que animais silvestres ingerem fragmentos plásticos durante alguns eventos de alimentação, o que prejudica a saúde e a sobrevivência desses organismos. As aves silvestres de vida livre estão entre os animais mais suscetíveis e vulneráveis à poluição por fragmentos plásticos descartados nos ecossistemas. A coruja-buraqueira, Athene cunicularia (Molina, 1782), é uma das espécies de ave de rapina mais comuns no continente americano, ocupando áreas naturais com vegetação baixa e áreas antrópicas, especialmente rurais ou periurbanas. Corujas-buraqueira possuem o típico comportamento de abrir tocas no solo para se proteger e reproduzir (ninho), utilizando-as fielmente por alguns meses ou anos. Essas tocas produzidas são ornamentadas pelas corujas-buraqueira com folhas, galhos ou outros elementos encontrados no ambiente. Em áreas antrópicas, corujas-buraqueira utilizam materiais antropogênicos para ornamentar suas tocas, especialmente fragmentos de embalagens plásticas, o que pode prejudicar a saúde e sobrevivência de adultos e filhotes se ingeridos. Apesar desta potencial ameaça, ainda não é conhecido se fragmentos de plásticos são consumidos por corujas-buraqueira em áreas antrópicas. O objetivo deste estudo foi analisar a frequência de ocorrência de fragmentos plásticos na dieta e nas tocas de corujas-buraqueira em áreas antrópicas do oeste potiguar. Corujas regurgitam diariamente massas compactas contendo restos de suas presas que não puderam ser digeridas, denominadas egagrópilos, e a análise destas amostras possibilita a identificação dos os itens consumidos por estas aves. Assim, entre agosto de 2023 e julho de 2024, foram coletadas e analisadas 200 amostras de egagrópilos de corujas-buraqueira encontradas durante um monitoramento quinzenal de seis tocas ativas identificadas nos municípios de Mossoró–RN e Pau dos Ferros–RN. A análise dessas amostras evidenciou a presença de fragmentos plásticos associados aos restos de alimentos não digeridos e regurgitados por corujas-buraqueira, indicando o consumo eventual de plásticos por essas aves em áreas antrópicas. A frequência de ocorrência de fragmentos plásticos nas amostras de egagrópilos de corujas-buraqueira foi de 6% (N = 12) e a de fragmentos de vertebrados e invertebrados ~95% (N = 190). O peso médio (mg) de fragmentos plásticos nas amostras foi 1,5 ± 6,3 (média ± desvio padrão; N = 12). O peso médio relativo (%) de invertebrados por amostra foi 0,11 ± 0,13 e o de vertebrados 0,11 ± 0,17 (N = 200). O número médio de fragmentos de plásticos por toca de corujas-buraqueira monitorado foi 1 ± 5,85 (N = 06 ninhos) e o tamanho médio (cm) desses fragmentos plásticos foi 5 ± 8,12 (N = 19). Estratégias de conservação e manejo de corujas-buraqueira em áreas urbanas e rurais devem considerar a remoção periódica de fragmentos de plásticos na região do entorno de suas tocas, para que essas corujas evitem o uso desses materiais na ornamentação e o seu consumo.